22/12/2013

Um fim azedo de domingo…

Posted in minha mente às 22:05 por Perseu

Como estou cansado. Não sinto mais vontade nenhuma de escrever, a depressão me domina, além das doenças que adquiri. Passo 24hs por dia sentindo dores. Estômago, coluna, braços, pernas, tudo dói, entre outras coisas. Os médicos dizem que meu problema é emocional. Grande novidade, meu emocional está em curto. Não funciona direito, sinto vergonha de ser eu.

 

Mas deixando as chorumelas de lado vou falar da Cd. Ela é minha namorada, não somos apaixonados um pelo outro, na verdade um ajuda o outro. Eu a ajudo financeiramente a passar os perrengues, ela limpa minha casa, faz comida, cuida de mim. Nesta última semana ela me propôs morarmos juntos, não como marido e mulher, apenas como namorados. A idéia é que eu a ajude a quitar seu apartamento que está pra ser leiloado, em troca terei casa, comida e roupa lavada e quando ela passar no concurso que vai prestar, devolver parceladamente o dinheiro que vou dar a ela. O problema é que também terei a companhia da filha dela por quem não simpatizo e mais uma cachorra que é o verdadeiro demônio da Tasmania. Além disso terei que morar no cú do Judas, perifa total! Nunca morei fora do centro de SP. Acho que a experiência de morar tão longe será horrível, mas é isso ou comprar uma quitenete minúscula na boca do lixo. Prefiro ir morar com Cd, pois acho que se eu vivesse numa quitenete minúscula eu enlouqueceria mais rápido.

 

Mudando de assunto, vem aí mais um natal e ano novo. Odeio está época do ano, a minha depressão aumenta em dezembro, pois neste mês costumamos fazer um balanço do ano que está para terminar e, no meu caso, o ano foi uma merda, pior até que 2012 que também foi outra merda. Como eu sou negativo. Mas dá pra ser diferente? Com tudo conspirando contra. Eu deveria ser agradecido por ter uma pessoa que cuida de mim e alguns amigos, mesmo que eu não os procure mais, por não ter muito o que dizer. Se você entrou aqui por acaso, já deve estar sentindo uma nuvem preta pairando sobre este blogue, infelizmente este sou eu, mas não escrevo pra você que, desafortunadamente caiu neste blogue. Escrevo para mim mesmo já que não sou de falar muito. Fiquei meses sem postar nada por pura apatia e agora, neste fim de domingo, escrevo para tentar driblar o tédio, mas não estou conseguindo. Tentarei dormir mais cedo para acordar mais cedo. Cedo que eu digo é meio-dia! Passo a maior parte do dia na cama, onde me sinto melhor. Já cansei de escrever estas chorumelas. Paro por aqui, porque nem eu mesmo estou aguentando. Se você leu até aqui eu sinto muito. Ficarei sem a companhia de Cd até o dia 31. E a solidão me sufoca. Preciso parar. Tchau…

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23/06/2013

C´s…

Posted in minha mente às 0:59 por Perseu

Início da madrugada de domingo. Faço mais uma tentativa de escrever.  Qualquer trabalho é demais pra mim. Não sei se consigo ir até o fim, fumo um cigarro. Estou tentando parar de fumar, neste sábado diminuí minha cota máxima para 18 cigarros/dia. É a terceira vez que recomeço. Já não boto fé, mas continuo tentando. E quando eu tiver que parar com os psicotrópicos, parar com a maconha? Acho que esses eu não vou parar. Por enquanto preciso deles pra me arrastar nesta vida. Assim como preciso de C, que vou passar a chamar de Cd, já que tem uma outra C que havia chegado antes.

 

Já contei como conheci Cd? Foi num site de relacionamentos. Precisava encontrar uma substituta pra C que já não estava me bastando, além do fato de ela sempre dizer que ia embora pra Minas Gerais. Pois é, de quebra encontrei Cd. Desde o início fui manipulando nossas conversas, não contava que ainda estava com C, eu dizia que estava sozinho. Mentia, coisa que sempre odiei dentro de um relacionamento. Mas estou mudado. Estou mudando. Estou ficando próximo de ser uma coisa mais parecida comigo mesmo. Depois de 2 meses de conversas finalmente nos encontramos. Tudo estava dando errado, sentia que não estava agradando, então, depois de 29 anos tomei um puta porre de vinho, só pra fazer ela me trazer pra casa. Paguei tanto mico nessa noite, mas não podia sair derrotado. Ela me trouxe até em casa. Pedimos mais uma garrafa de vinho por telefone, continuamos bebendo em casa, depois só me lembro de acordar com uma puta ressaca e vomitando. Ela estava dormindo nua na minha cama. Não me lembro de nada. Só sei que estamos juntos a mais de 4 meses. E eu cada vez mais bukovskiano…

19/05/2013

Que preguiça de viver…

Posted in minha mente às 23:42 por Perseu

Enfim estou escrevendo. Tenho aos poucos perdido toda a vontade de fazer qualquer coisa. Conforme vou descobrindo mais sobre mim e o mundo que me cerca mais vou me fechando numa concha. Desisti da terapia em grupo que fazia, de nada me valeu, assim como todos os remédios para vários tratamentos não me servem. Sou um homem doente, cada vez mais no fundo do poço de mim mesmo. Antes escrevia com um certo rigor na ortografia e principalmente nas idéias. Agora não me preocupo mais com erros gramaticais e nem em ordenar as minhas idéias para que possam ser acompanhadas. Mesmo assim nunca fui bom escritor. Descobri isso recentemente. Tirando uma ou outra poesia correta nada restou que prestasse. Escrevia por necessidade de falar, por não ter com quem falar, escrevia para um suposto leitor que nunca tive. Ó preguiça, é só o que sinto agora. Preguiça de estar acordado, de ter de viver. Tenho enorme dificuldade em cuidar da casa onde moro só. Tenho uma pessoa que me ajuda. Não sei como ela me suporta. Ela é minha namorada (vamos dizer assim), vem aqui de vez em quando passa uns dias comigo e vai embora. Ela não é apaixonada por mim nem eu por ela. Apenas, neste momento de nossas histórias precisamos um do outro.

Ó preguiça, fiquei esse tempo todo sem escrever pois além de não ter o que dizer, por preguiça mesmo de escrever. Esta preguiça vem do âmago da alma, apesar de saber que não temos alma (eu pelo menos não tenho), mas vem das profundezas de mim mesmo, este ser taciturno, melancólico, que odeia as horas acordadas do dia. Pretendo encerrar este blogue. Primeiro porque nunca funcionou como era pra funcionar, segundo (descoberta recente também) não tenho conhecimento satisfatório sobre os mitos, notadamente Eros e Ananké. Meu Eros adoeceu (a depressão), quem reina absoluta é Ananké e mesmo assim tenho muitas necessidades não satisfeitas. Por isso este blogue tornou-se desnecessário. Talvez faça outro só para os meus garranchos em bits e bytes. Continuo odiando os domingos. Estou escrevendo na noite de um domingo, mais um triste, melancólico e solitário domingo. Embora esteja sempre tentando parar de fumar hoje estou fumando muito, esperando a hora de fazer meu ritualzinho de recolhimento. Acendo um baseado, vejo vídeos de música na internet, tomo meus psicotrópicos e me recolho sempre com medo de dormir por ter que acordar no dia seguinte.

Tenho acordado cada vez mais tarde, não saio da cama antes das 14hs, mesmo quando tenho compromissos acordo tarde. E, por compromisso leia-se ir ao médico, fazer exames. E chego atrasado em todos os compromissos. Vocês que caem aqui sem querer e por acaso leêm o que eu escrevo imaginam um ser absolutamente depressivo, e estão certos. Não acredito mais em nada, não tenho tesão por nada, não tenho libido. Os médicos colaboram, dizem que meus problemas degenerativos na coluna só aumentarão com o tempo e eu tenho que conviver com uma eterna dor nas costas como a que sinto agora, por isso não posso mais ficar muito tempo no computador porque não aguento. Minha colite, gastrite, síndrome do intestino irritável também não tem cura e também provocam muita dor. Ou seja, tenho que viver os dias que me cabem cheio de dores e ainda tenho que ouvir bobagens como “você precisa melhorar tua auto-estima”. Parece piada de mal gosto. Disse que tenho uma namorada e estou completamente brocha, já me esqueci como é ter uma ereção, ou seja, também não posso mais trepar. Logo ela me abandona. Não há nenhum prazer a ser vivido a não ser fumar esta maconha que já não me dá brisa, mas alivia um pouco esta tensão de estar morto em vida. Estou meio bukovskiano, não há prazer possível para seres como eu. Me aborreço ao ler este amontoado de bobagens que escrevo. Escrever, além de cansativo, está se tornando mais do mesmo e irritante. O anjo negro da morte anda me rondando, mas para me torturar ainda mais me mantém vivo, respirando por aparelhos. Preciso desistir.

01/01/2013

Almofadas Azuis

Posted in minha mente às 15:16 por Perseu

– para mulheres de alma indecente –

A você darei

de tudo um pouco

o melhor canto da casa

um abajur violeta

uma rosa vermelha

um vinho roubado

um rockfort

uma marica de haxixe

um incenso teúrgico

uma tirada de sorte

um sofá antigo

uma amarga ‘Lady Day’

almofadas azuis, ousadias

poesias sacanas, massagens

e também a má fama

de andar comigo

(ago/1993)

22/12/2012

………

Posted in minha mente às 18:33 por Perseu

Eu teimo pelo beijo

que nunca virá

eu tremo pelos rodopios

do planeta a nos empurrar

pra o futuro

confundo os fusos eu não sei

onde estou agora

Eu tenho tantos anos de espera

de planos e de castigos

eu trago tanta destreza

pelas correntezas a nos tragar

qualquer uma das margens

não me leva aonde quero chegar

(ao arco-íris?)

Atendo em todo telefone

a mesma mensagem enquanto

naipes circulares de estrelas

nos enredam no mesmo lugar

flying saucers in the sky

alguém sempre vê

mas não estão aqui

Eu tramo pela sabotagem

em todo paraquedas

há tantos sentinelas insones

a nos vigiar noite e dia

somente os deuses se existissem

saberiam escapar

de tanta solidão

Pretendo arquivar sonhos pesados

mas pixam no meu site

pra eu ser feliz diariamente

alegria é coisa de quem vê o dia

ananké no meu tanque

de águas escuras

pra onde eu vou agora

Eu tento um sorriso

em cada cigarro que acendo

enquanto tua voz me consola

como um blues rasgando a noite mas

eternidade é um lugar distante

abrirei minhas mãos agora

para que voem todos os pássaros

Eu teimo pelo beijo

que nunca virá

eu teimo pelo deus que não ouvirá

minha prece e meu silêncio

a sorte está lançada

e uma janela reza aberta

o mistério das estrelas…

(nov/1997)

14/12/2012

Na foto Lilith Mesopotâmica

Posted in minha mente às 11:28 por Perseu

Na foto Lilith Mesopotâmica

No livro “Lilith, A Lua Negra”, do psicanalista italiano Roberto Sicuteri, é apresentada Lilith de diversas formas, esta Lilith que eu conheci tão bem e senti seu efeito devastador.

Abaixo, um trecho do prefácio do livro.

Ao leitor

Neste livro é contada a história de Lilith, a primeira companheira bíblica de Adão, cujos traços a consciência coletiva apagou, distraidamente, no tempo incomensurável em que se representa a história do homem.É a história de um incubo, de um sonho, ou então é a história da mais inquietante imagem derivada do arquétipo da Grande Mãe. Em todas as épocas o homem interroga a Lua; chegou mesmo a tocá-la com as mãos. Não obstante, não desvendou, para si mesmo, o mistério inconsciente, incluído em figurações e mitos que em certas épocas fazem-lhe apelo — do interior — com seu fascínio e com uma mensagem obscura que, seguramente, fala da alma e da carne, do amor e da morte. Isto porque fala da mulher.

Lilith, a Lua Negra, é o céu vazio e tenebroso no qual se projetam indagações e possíveis respostas de um diálogo que não tem nada a ver com o racional e, muito menos,com o sistemático-clínico: é o diálogo que o homem entretém com a própria alma, vivida em sua totalidade, ou numa cisão-dolorosa.(…)

R.S.

10/12/2012

MANDRÁGORA

Posted in minha mente às 0:21 por Perseu

Para Brux

Então fiquei calado quando vi que não virias

Esperei inquieto a noite inteira e temi a tua ausência

Fiz novena hipocrente e pio

E sei que você não entendeu nada

Você não leu meu manuscrito

Você não percebeu a minha mão indo de encontro

A conjunção prometida pelas efemérides

Não houve nada não nada de mais

Meu esperanto ficou para o infinito

Agora é dia que dia é hoje mesmo dia

Que imensidão de estrelas há ainda lá em cima

Enquanto aqui vivemos cegos sob o sol

Numa piscadela de deus nada de novo

 

Você ficou zangada como tua mãe

Você ralhou com teus pequenos defeitos

Que você paria a cada lua cheia

E devorava cronos que não querias

Cadê a hora que você faria

Cadê o tal dia que você me disse

Estive aqui você não veio

Só vou te esperar por trinta e três anos

Nem um minuto mais

Falei isso prá você anno domini passado

Quando trouxe as tintas pra pintar a varanda

Depois disso deixarei minha mensagem

Ferrugens cabelos brancos poeiras

Torneiras vazando rachaduras sequelas

Mas não haverá mais cobranças certamente

 

Na geladeira tem um resto de champanhe

Pra tomar com o panetone que também sobrou

Uvas passas avelãs e cidras

Presentes abertos no passado

Sobrou tanta coisa nesta casa

Inclusive eu com minhas manias

Meus inimigos imaginários meus amigos

Personagens que sobem em palanques

Enlouquecendo às quatro da manhã ou antes

Eis que às cinco me negarás pra sempre

O arcano treze disse fim again

Logo eu que te ensinei a ler centúrias joyceanas

Queda castigo fim de mundo evangelho

Contei os teus pecados é verdade

Mas essas contas estão pagas

Faltou rezar outro mistério

 

Já não reconhecerias mais nossa casa

A jardineira do terraço mandaram arrancar

Levaram embora nosso vasos orquídeas e primaveras

Mas os girassóis já haviam morrido bem antes

Pouco depois do vendaval passado

Aquele mesmo que nos levou as telhas

Quem sabe na hora agá salve-nos a cavalaria

Quem sabe estou errado mas não estou

Vou acender o fogo como faziam nossos ancestrais

Vou queimar fumo incenso e cartas

E depois esquecerei as datas

Se mandas recado numa nave o cosmo responde

Com silêncio não há vida além do verso

E já teremos perdido nossa voz nome e sabor

Melhor assim nos apresentarão novo destino

E nos diremos muito-prazer-parece-te-conheço-sei-de-onde

E nos daremos sábados festas e luas novas

Escorpiões venusianos venenosos

Rimas fáceis fantasias travessuras gostosuras

Mas dia de bruxas nunca mais

 

Depois de tudo da cruz te olharei pra sempre

Como olharias para mim d´uma fogueira santa

Desafiando os algozes sempre amém te amarei sim

Diriam nossas lágrimas no lugar das nossas vozes

Mesmo que caiam todos os anjos e estrelas

E nossas mandalas teúrgicas não se abram

Malæus malæficarum nostro pecatorum nomini dei

Igne natura lux condescendenti quæ permissa

Opus conunctio no meu latim errado mas sublime

Única verdade nos meus dias de mentira

Antes que me esqueça repare que no alambique

Progrediu o meu mal Mercúrio

Como vai o teu errático Netuno

Ao lado de Zeus ficaremos bem um dia

 

Pois é está na hora

Adeus velha árvore da lembrança

Que não vai envelhecer como queria

Não há balanços nos teus galhos

Nem brinquedos espalhados sob sua sombra

Tão escura que nem os morcegos te acharam

Teu naipe de copas não chegou ao céu ou trono

Mas tuas raízes de espadas faíscam no inferno

Parece que somente os pássaros repararam

Na ausência dos teus frutos e do outono

O inverno chegou antes ó natureza morta

 

Agora o quintal está limpo como outrora

Como naqueles dias e noites de verão

Só em sonho chega-se a ele agora

Mas te darei o vale de Acor como devida porta

O meu rancor deixei debaixo do tapete

Junto das chaves que usarás para abrir a ferida

Ou o que há de meu dentro de si mesma

E haverá de doer ainda mais tua entrada

Do que está sendo doída minha saída

 

(abril/1997)

01/12/2012

DEPOIS…(Agora estou mal. Agora estou lúcido. Mas depois virão os Pombos…)

Posted in minha mente às 22:30 por Perseu

A luz do dia

É como o brilho do punhal

A furar o escuro

A fazer arder de verdades sujas

Este instante que separa o antes

Do depois,

Não sei se o corte fatal

É rápido,

Não sei o que virá

Depois,

Entretanto, é longa a dor

De agora,

É longa e úmida-vermelha

Esta certeza da lâmina fria

Que me mata na alegria

De antes,

Feita de ânsias e ânforas de aromas

E esperanças,

Em noturnos lentos, serenatas

De tempos no espaço

E me devolve outra vez à luz

Ácidas lágrimas cristalinas

Assim, neste agora

Pouco antes do Pombos…

Então os Pombos vêm

Um a um, até formar um bando

E começam a bicar meus olhos,

A arrancá-los

Não por maldade

Mas por profunda piedade

Do depois,

Esse depois que não demora

Iluminado com lâminas agudas

Tão pior que a dor e o sangue

De agora…

(11/09/96)

28/11/2012

A noção de certas coisas…

Posted in minha mente às 0:41 por Perseu

No trago de hoje perdi um pouco a noção de certas coisas. Algumas cartas, algumas palavras ditas em algum lugar em algum tempo. Estou só. Uma solidão nova. Experimento nesta solidão um sabor novo, e sei: não é da bebida, não é do dia chuvoso. É mais longe, é mais fundo. É em mim. Parece-me que morri numa metade, tendo na outra metade uma viúva que se esforça para não chorar.

O dia amanheceu e era um ano novo e nem me dei conta disso. E agora? Tenho este gosto seco sobre a língua. Uma sensação desagradável. Mais um ano novo, no entanto, cada vez mais velho para mim. Que estranho: sinto saudades do filho que nunca terei. Meu filho. Minha vida morta. Que saudade que eu tenho da vida. Daqueles domingos de manhã que tinham um sabor tão delicado, tão especial. O sino da igreja. Minha mãe fazendo café. Um cheiro bom de terra molhada do quintal. Meu cachorro sobre mim a me lamber a cara e me dando bom dia. E meu pai lá no galpão dos fundos, com suas ferramentas. Talvez fazendo um brinquedo para mim.

Ah, era domingo nesse ontem que vislumbro. E havia ainda uns madrigais e um perfume de alecrim com flor de jabuticaba, grandes e negras jabuticabas que incensavam meu espírito. Um sol tão bom iluminando o quarto pelas frestas da venesiana. Me lembro que o domingo era bom, prometendo matinês e brincadeiras. E havia coreto com banda e sorvete de milho verde no fim do dia. Domingo pede cachimbo. O-cachimbo-é-de-barro-e-bate-no-jarro-o-jarro-é-de-ouro-e-bate-no-touro-o-touro-é-valente-e-chifra-a-gente-a-gente-é-fraca-e-cai-no-buraco-o-buraco-é-fundo-e-acaba-o-mundo…Que saudades daqueles domingos. Naquele curto tempo bom que houve antes de tudo começar a ruir…

Viajei. Voltei. Meu cachorro morreu. Meu pai morreu. Minha mãe está envelhecida. Não há mais brinquedos feitos em casa. Não há mais quintal nem terra. E os sinos, só os que ouço vez enquando num velho disco de música barroca. Minha memória falha, muitos neurônios já foram destruídos. Os perfumes de alecrim e flor de jabuticaba foram substituídos por este cheiro de maconha e cigarro permanente no meu quarto.

E os domingos? Meus atuais domingos de manhã…Quando acordo já se foi mais da metade do domingo. Quando levanto estou quebrado, doído, de ressaca, com um gosto horrível na boca…Como o gosto que sinto agora. E hoje não é domingo. Nem dia. Hoje é uma hora qualquer num tempo qualquer em que vivo um novo gosto de solidão. Este gosto seco. Gosto novo em minha boca velha.

Um ano novo começou a pouco. Que diferença faz do ano que terminou a pouco? E o sentido? Onde foi parar o sentido disso tudo? Coisas que terminam. Coisas que começam….O sentido. Devo tê-lo bebido junto deste outro trago que nem percebi. Quantos tragos já foram? Fiquei tanto tempo na janela vendo essa chuva que não para de cair. Sinto minha alma úmida. E mofo em meu coração. Se ainda houvesse uma Tabacaria defronte à minha janela. E de lá saísse um Esteves (metendo troco na algibeira das calças?) que por um instinto divino, viraria-se, veria-me e me acenaria adeus. E eu gritaria ‘adeus, ó Esteves’, numa tentativa desesperada de fazer com que o universo se me reconstruísse de imediato…

Resta-me este breve consolo de Pessoa. Estes fumos. Este conhaque que me aquece e me embala. Uns discos que fazem viajar. Umas lembranças. Umas saudades. A noção de certas coisas, essas coisas…

(03/jan/1990)

18/11/2012

……….

Posted in minha mente às 18:50 por Perseu

Você que me vê

Não vê a mim

São meus despojos que estão à vista

São meus dejetos despejados esta massa

A que você chama pelo meu nome

Não me toque

Que estou sujo

Sou como o vômito de uma bebedeira anterior

Sou como o choro de uma alma

Ao lado de seu próprio cadáver

E eu choro tanto

Como a tanto eu não chorava

Um choro de criança abandonada

Sou como a carniça desse corpo

Num deserto distante

O teu olhar me pesa como uma condenação

E a minha sentença é a uma dor eterna

Flutuam aves mortas sobre as minhas lágrimas

São vôos abatidos

Viagens terminadas

Me sinto só

Como uma nuvem num céu agreste

Me sinto perdido

Como um riacho entre montanhas

As tuas mãos descendo sobre mim

São como abutres a bicar meus olhos

A tua consideração

São as hienas a destroçar meus membros

Tua boa intenção

É uma pá de terra

Talvez com meu nome escrito nela

Mas eu estou vivo

Como nunca estive

Como nunca soube estar

E só o que percebo

É esse véu negro a lhe esconder o rosto

Tua voz a prometer descanso

 Essas carpideiras a afastar as moscas de meu corpo

E essa angústia por esta injusta e necessária morte

(SP. Abril/1987)

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