06/06/2010
Olha eu não sei ser feliz, não é culpa minha, não há culpa, só um defeito de fabricação. Olha, por não saber ser feliz, apesar de eu acreditar que ninguém é feliz, no máximo as pessoas conseguem estar felizes. Olha nem isso, não consigo estar. Estou sempre reerguendo meu castelo de cartas e ele sempre cai. Estou ficando cansado de reerguer castelos de cartas e esquecido de como se inventam estados de felicidade, sei que pode ser pouca coisa. Mas, quanto é o pouco? Quando será a hora do riso? Gostaria de uma boa risada mensal, como um salário. Como esta ajuda para desajustados que ganho. Mas não rio há anos. A correnteza bate com força nos meus tornozelos, meus alicerces estão enfraquecendo. A que horas acaba este espetáculo? Que horas são em Moscou? Aqui são as mesmas horas de sempre. Olha, hoje vou ser rápido. Ouço músicas que gosto. Ignoro este domingo que começa acontecer. Eu vou faltar no almoço deste domingo. Tudo bem, faz anos que não preciso fingir apetites dominicais e nem preciso mais faltar. Tenho vontade de fazer um atentado contra o domingo. Eu, uma bomba e nunca mais domingo. Olha, também não sou muito de conversa, não nesses dias como este que são quase todos e já são tantos que devem ser anos, por isso escrevo. Se eu não fosse ateu teria uma bobagem mística pra acreditar. Infelizmente não se volta ao paraíso. Já disse uma vez que as portas do paraíso só abrem para expulsar, nunca para acolher. E o desejo de reinar é válido até no Inferno, melhor reinar no Inferno do que servir no céu, disse John Milton no “Paraíso Perdido”, você não leu? Claro que não. Então não leia, não leia também O Fausto, não leia O Livro do Desassossego, nem Notas do Subterrâneo, não veja As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, não assista As Horas nem A Última Tentação de Cristo, jamais ouça Tori Amos e nunca leia Sêneca, nem Virgílio, nem Schopenhauer, nem “descubra” Gentileza, Niezstche sempre está na moda, mas nunca se aproxime demais. Cuidado teu sorriso pode murchar aos poucos conforme você for descobrindo que. Os vincos ao redor da boca podem ficar mais fundos conforme você for descobrindo que. As caixas pretas foram feitas para serem abertas somente após o desastre, então não corra o risco de abrir a sua ainda em vida, até Freud sabia que não se abre uma caixa de escorpiões, só os loucos e os anjos caídos fazem isso. E não há mais salvação. As injeções estão menos doloridas ou eu que já não sinto nem a picada nem a droga sendo injetada intramuscularmente? O que importa isso agora? Preciso voltar às mesas cirúrgicas como antigamente, quando era certo e quando eu acreditava no meu personagem. Não sei se o truque vai dar certo desta vez. Não há nenhuma nuvem romântica no balão dos meus pensamentos. Não sei se vou, se fico e vejo o navio ficando pequeno no horizonte, não sei se volto, como voltava sempre, com cicatrizes, mas vivo, saindo de um túnel, como Pagu, mas até ela desistiu um dia, como Virginía Woolf desistiu, como Ana Cristina Cesar desistiu, como Silvia Plath desistiu. Só há nomes femininos nesta lista de desistências. Talvez porque as mulheres saibam mais claramente quando é realmente o momento de desistir. Hoje o dia me pegou de surpresa. Olha, já passou da hora de me encolher e recolher. Hoje eu queria mais. Não sei exatamente o que. Quem saiba eu tenha um lindo sonho hoje que continue me embalando quando acordar. Olha, não sei se foi o frio, o outono ou o desejo ou o medo, mas alguma coisa acabou de calar agora.






Tânia Virginia disse,
28/05/2011 às 20:46
Não esquenta… a gente arruma um sábado para cada dia.
Volta já e escreve tudo quanto mais haja!