21/05/2010
Uma história de…
Eu poderia convidá-la para um café, um chocolate, talvez um conhaque. Não, seria muita bandeira, logo de cara oferecer algo com alcool. Para certas coisas os rituais são sagrados e não se deve nunca pular etapas. Mas a ideia do chocolate é boa. Está frio, garoento e todo mundo gosta de chocolate. Ou pelo menos deveria. Vamos, o tempo corre e as oportunidades são como elfos, silfos, salamandras, fadas, elas vêm rápida e repentina e sutilmente nos tocam, podemos perceber ou não. Se não percebermos continuaremos com nossas vidinhas medíocres e previsíveis, mesmo que povoadas de sonhos e até sonhos realizáveis desde que. Existem os que conseguem enxergar, por um segundo no máximo, os elementais, as salamandras chamam mais a atenção, mas as fadas gostam de provocar. E há essa imensa maioria de seres urbanos até a medula como eu que nunca enxergou nada, nem mesmo alucinando de haxixe. Mas posso sentir. Não sei dizer como é esse sentir. Será que preciso ir ao começo desta história? Mas já aviso: ela não tem fim. Ainda. Ou talvez eu invente um fim. O tempo está passando preciso agir depressa.
Ela não é do tipo que um sujeito qualquer chamaria de bonita, gostosa, essa coisa entre homens que parecem sentir orgulho de fazer acreditar que só pensam com a cabeça de baixo. As mulheres ficariam surpresas se soubessem o grande número de homens que escondem a todo custo suas fragilidades por medo da perda da virilidade. É uma coisa atávica. Mas os que percebem-se diferentes e que agem diferente, que conseguem desenvolver certas feminilidades sem contudo serem homossexuais. Estes também não se notam facilmente. A não ser em situações como esta. Eu não queria nela uma beleza cosmética, um corpo curvilíneo, nada que fosse comum encontrar numa mulher bonita e gostosa. Eu sou desses homens diferentes, sofro por isso, mas falo disso outra hora. Agora, neste segundo em que este turbilhão de pensamentos me invadem é o momento da ação. Homens como eu apreciam as mulheres que sabem tomar a iniciativa. Nada de invasivo, sem excessos que só fazem decepcionar ou com uma intenção causal de seduzir. Não. A sedução é a soma da história toda, se ela for boa. Mas nesse momento eu olhei rapidamente no exato instante em que ela ajeitava os óculos sobre o nariz com o dedo médio, de unhas curtas mas bem feitas. Havia aquele antigo cachecol vermelho e preto, curto, parecido com um que já tive. Falei do cachecol porque das unhas curtas porém vermelhas no dedo que ajeitava os óculos emendou-se a imagem do cachecol em volta do pescoço. Dá uma sensação de felicidade quando a gente percebe detalhes que vão se somando até chegar finalmente à imagem de uma mulher bonita. Eu diria linda. Pois em tudo ela era tão sutilmente feminina que poderia adivinhar seu perfume se ela estivesse usando um. E se usasse um seria tão delicado, que só de muito perto a gente conseguiria perceber. Mas não estávamos perto o suficiente. Pelo menos não até esse momento. Ei leitor-ouvinte, eu escrevo por fragmentos, peças que precisam ser montadas. E ainda não escolhi direito as peças.
Do meu lado eu estava num daqueles dias de asperezas. Logo cedo me vesti com a roupa mais fácil que me apareceu que me dava um certo ar de funcionário de banco! Quando eu acordei mais parecia que ia seguindo um roteiro de punições, porque logo aquela roupa que não tem nada a ver comigo? Parecia que minha mãe havia ressuscitado (às vezes ela ressuscitava) e tinha deixado aquela roupa de propósito. Vai seu cabeça de merda bota uma roupa decente! Talvez por isso esse gosto secreto pelas indecentes elegâncias. Queria ter conhecido os cabarés do começo do século 20. Queria ter morrido jovem, sifilítico ou tuberculoso, como Alvarez de Azevedo, até tentei morrer, no dia
em que fiz 22 anos! O que se sucedeu foi rídiculo e nem merece comentário. Se eu for parar em cada cena ridícula de minha vida não termino nunca. Nem sei se vou terminar. Esta história tem vida própria. Agora estou escrevendo lúcido sem ouvir nenhuma música, só os sons irritantes da rua, a minha garganta doendo, café, cigarro. Mas também vou querer escrever com trilha sonora que vai do dixieland ao trip hop, passando obviamente pelo bolero e bêbadas Maysas. Um pouco chapado de maconha e vinho. Quero escrever com todos os eus. O final vai dizer qual eu tem prevalecido. Eu não devia dar detalhes. Tinha parado no momento em que vesti aquele traje corretíssimo e, como chovesse ainda saí de guarda-chuva, sabe? Daqueles de apontar porco, como diria meu avô. Frio e chuva e eu me guardando todo deles. Logo eles que me colocariam frente a frente com aquela mulher de óculos, unhas curtas e vermelhas, feminina desde a alma, com uma calça bailarina por debaixo de um vestido de que cor? Isso defino depois. Café ou chocolate? Tenho quase certeza que uma fada piscou pra mim!





Caroll disse,
21/05/2010 às 21:06
Êxtase ao ler, bom demais! Basta dizer isso. Beijão, Caroll
Talita disse,
07/06/2010 às 17:44
Eu estava navegando por ai, até que pensei “Cansei de ler textos coloridos… Cadê o blog do Plínio??!!” rs
Li seu ultimo texto do dia 06/06, como sempre me identifico muito.
” …Talvez porque as mulheres saibam mais claramente quando é realmente o momento de desistir…” ( é a prática rsrs…)
Mas fiquei surpresa quando li este post, é brilhante… não deixe que se apague…
Grande abraço.
Perseu disse,
08/06/2010 às 11:42
Prática ou uma subjetividade mais espontânea? Falo de mulheres de verdade e não essas babacas do neo-feminismo que nada mais fazem do que fingir que tem um pênis pra competir no mundo masculino.
Talita disse,
09/06/2010 às 11:18
Eu me referi à prática e a real necessidade de saber o momento de desistir, em diversos níveis e circunstâncias…
Mas as mulheres que você citou são incomparáveis, e eu gostaria de ser ao menos um décimo do que elas foram.
Perseu disse,
10/06/2010 às 1:57
Potencial vc tem, vc demonstra que sente intensamente as coisas, seja uma…mas não desista1
Paloma disse,
20/10/2010 às 0:45
Nossa que texto… que expressão se sentimentos..
adorei estava viajando na net…. encontrei isso por acaso…
não pare de escrever.. é simplesmente poético.. suspense..
e o detalhe da unha vermelha junto com o cachecol…
até sua alma…. Parabens…
Os detalhes realmente fazem diferença!
Perseu disse,
23/10/2010 às 5:57
Obrigado, este blogue está parado não sei se momentaneamente ou pra sempre, esse conto foi interrompido pois cometi um erro, não era pra ser narrado na primeira pessoa, ia acabar estragando os outros módulos, então ficou sem final, mas q bom q tenha gostado.