09/05/2010
A Longa Espera ou o Canto da Cigarra – epílogo
dedicado a Mercedes Sosa que me eninou muito sobre arte, espera e vida…
O que escrevo é o que calo. É a voz que não sai, a melodia que não compus para acompanhar este amontoado de letras. Hoje não haverá graças, nem jocosidades, essas coisas que compoêm o meu ser. Se alguém teve a curiosidade de ler o meu perfil entende que este escriba é um homem que esteve cego. Que esteve dormindo. Em coma. Como queira. Que vivia à margem malcheirosa de si mesmo. Perdoem os erros de gramática ou digitação. Hoje não estou nada bom e sem revisões. Este escriba sofre da mais moderna das doenças. Não vou ficar falando sobre isso. Concluam vocês mesmos se algo houver a concluir. Eu sou o que soa eu não douro pílula. Eu tenho me matado por lutar por viver. Difícil entender? Sei que fica dificil entender gente como eu. Sinestesias. Tome uma antes de abrir este blogue. Hoje eu saí do roteiro, mas foda-se, como Clarice eu escrevo por profundamente querer falar. E os que podem me ouvir são como eu, ou até piores. Pior no sentido como você percebe as cores e os movimentos. Você já ouviu como cada letra produz um som? Digito como se tocasse um piano. Tons menores, abafadores, distorcedores. Queria que você ouvisse a música que sai deste teclado. Me faça um favor, se você leu até aqui me faça um favor. Ouça esta canção de outono que escrevo para você. Eu me dedico hoje todo à você e se você necessita de alguma salvação, da cura de alguma dor juro pelo mais sagrado que serei teu herói, ou fada, se de coração você me permitir esta coisa possível entre humanos. O que te grita mais alto no coração. Silêncio. Sento ao teclado. Eis a música que escrevo para que você peloamordedeusmeouça.
Desde a tarde está chovendo nesta cidade cinzenta de um frio estranho pela qual sinto um profundo amor e respeito. A terra está amolecida. Ei, é outono, estou quase conseguindo sair totalmente da terra, sair desta longa fase ninfa e procurar por um árvore. Agora quem fala sou eu A Cigarra. Você sabia que existem vários tipos de cigarra que passam de 4 a 17 anos enterradas na terra, lentamente se transformando, se transmutando, se emoldurando, se criando? Se criando?! Sim, longuíssima gestação, que ao nascer já terá incorporado tanta vivência atávica que já nascerá no alto verão de si mesma. Sabedora de tudo, conhecedora de tudo. Do bem e do mal em substâncias ainda tão impossíveis para humanos sentirem, descreverem. Alguém consegue enxergar o infravermelho? Alguém consegue “enxergar ” certos níveis vibracionais? As cigarras já nascem sabendo. Ao sair da terra elas procuram a árvore mais próxima e começam lentamente a subir. E também lentamente elas começam a vibrar suas asas, seu canto. E elas sabem que terão apenas três semanas de vida para viverem o propósito de sua existência. Na próxima vez que você ouvir cigarras cantando tenha a certeza que algum ser na natureza está no pleno exercício da sua vida. Por que um ser chega a passar 17 anos da sua existência enterrado, para de fato viver por apenas três semanas? Um ser que ocupa plenamente seu espaço no mundo apenas 0,3% de sua existência? Bem, isso se considerarmos que vida é algo em movimento, talvez para argumentar-se em alguma questão relativa a arte essa condição seja até verdadeira. Mas a arte não precisa imitar a vida ou pelo menos não todas as formas de vida. A arte jamais entendeu e jamais entenderá tudo que é seu sangue: a existência de vida pressentível. Felizmente a arte jamais entenderá tudo, pois seria o fim da arte. A criação estaria totalmente concluída e todos os deuses passariam o resto de sua eternidade na quase-morte da hibernação. Não, artistas. Ouçam as estações do ano, tentem ao menos imaginar, dentro ou fora de seu espaço de consciência, níveis tão outros de vibração que compôem cada estação. É tão certo os cíclos da vida. Os Egípcios sabiam disso e se você tiver a fatal felicidade de ver um céu noturno, repleto de estrelas e lá você ver as constelações do Órion e do Cão Maior e lá você reconhecer o trapézio e o cinturão de Órion e a gigantíssima, brilhantíssima Sírius do Cão Maior você estará vendo a disposição das pirâmides do Egito! Não, eu não estou delirando, se tiver dúvidas consulte a wikipédia ou outra mais à mão. As primeiras civilizações surgiram às margens do Nilo. Estou certo? E entendendo o mecanismo de cima, entenderam o mecanismo de baixo. Que tal entender o mecanismo de dentro para entender o de fora? O verdadeiro Jesus gnóstico e proibido até hoje pelas santíssimas igrejas, sabia das coisas quando dizia, em seu Evangelho da Verdade (conhecido nos meios psicanalíticos como Códice de Jung), que os homens encontrariam o reino de deus quando o de cima fosse como o de baixo e o interior como o seu exterior. E quem tenha ouvidos para ouvir que ouça. Você consegue ouvir minha música solitário e bemvindo leitor?
Não estamos na temporada das cigarras. Posso aproveitar para falar, se é que já não ficou claro, que nessas três semanas de vida as cigarras machos (as que cantam) e as fêmeas, procuram-se a si mesmas para procriar. A fêmea quando põe seus ovos morre logo em seguida, os machos quando fecundam a última fêmea calam seu canto e também morrem. Impossível a um incorrigível romântico como eu não sentir certos arrrepios quando falo e sei disso. Mas o que eu quero dizer o que eu estou tentando enfadonhamente dizer é que. É que. É que eu homem passei toda a minha vida enterrado na terra. Esta é a visão mais otimista que consigo ter de mim mesmo. Enquanto estive enterrado pratiquei todos o erros, todos os (pouquíssimos) acertos, conheci muitos dos sabores da vida e agora me levanto, tiro minha capa de ninfa e digo a mim mesmo: Estou pronto! É claro que a história das cigarras não é uma love story, é o mero cumprimento de suas missões conforme sua espécie, e há aquelas que falham nessa missão, há aquelas que são devoradas por seus predadores muito antes das três semanas, muitas ainda mal e mal chegando à árvore, sem ainda abrir suas asas. O que você queria? Garantia? A vida não é um eletrodoméstico. “Dar certo na vida” não está presente na Declaração Universal dos Direitos do Homem nem no nosso Código de Defesa do Consumidor. E muito menos em qualquer tipo de bíblia, é claro excetuando-se aqueles pasquins de auto-ajuda paulocoelhianos.
Bem, estou do lado de fora da terra agora, não tenho garantias, mas tenho tudo que preciso para chegar ao lugar onde me cabe chegar (esta aqui está no Livro das Mutações,o I-Ching). Nem sei se vou alcançar aquela árvore ali em frente (um pessegueiro). Mas EXIJO meu direito a três semanas daquilo que vou chamar aqui inapropriadamente de FELICIDADE (fica mais fácil de entender). Tenho realmente pouco tempo e ele já está corrrendo desde que me enterraram. Não peço sorte, não peço chance, não peço que o sol brilhe nem que as noites sejam estreladas. Só me deixem ser um homem desenterrado. Um homem vivo, que, afinal, e apesar de tudo quer VIVER. Quando, e se eu chegar, ao pessegueiro ali em frente eu com muita alegria partilharei isso com vocês. Tenham uma boa noite meus queridos, desce o pano.
(…) Cantando al sol,
como la cigarra,
después de uns años
bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra






Tali disse,
12/05/2010 às 20:32
Estava eu aqui sentindo um enorme friu e vazio, até que ouvi a sua música. Me fez sentir um pouco melhor, como se uma pequena chama acendesse em mim.. quente e luminosa.
Muito obrigada!!!!
Parabéns pelo renascimento, espero que seus novos dias sejam um maravilhoso espetáculo!
paz e luz, grande abraço
TLT