13/06/2010
Acho que vou deletar este blogue e ficar só com o Bom Dia Tropicália! ou deletar os dois, voltei a achar que vale mais a pena escrever só no word ainda mais agora que vou ficar sem internet. Vamos ver o que vem primeiro.
06/06/2010
Olha eu não sei ser feliz, não é culpa minha, não há culpa, só um defeito de fabricação. Olha, por não saber ser feliz, apesar de eu acreditar que ninguém é feliz, no máximo as pessoas conseguem estar felizes. Olha nem isso, não consigo estar. Estou sempre reerguendo meu castelo de cartas e ele sempre cai. Estou ficando cansado de reerguer castelos de cartas e esquecido de como se inventam estados de felicidade, sei que pode ser pouca coisa. Mas, quanto é o pouco? Quando será a hora do riso? Gostaria de uma boa risada mensal, como um salário. Como esta ajuda para desajustados que ganho. Mas não rio há anos. A correnteza bate com força nos meus tornozelos, meus alicerces estão enfraquecendo. A que horas acaba este espetáculo? Que horas são em Moscou? Aqui são as mesmas horas de sempre. Olha, hoje vou ser rápido. Ouço músicas que gosto. Ignoro este domingo que começa acontecer. Eu vou faltar no almoço deste domingo. Tudo bem, faz anos que não preciso fingir apetites dominicais e nem preciso mais faltar. Tenho vontade de fazer um atentado contra o domingo. Eu, uma bomba e nunca mais domingo. Olha, também não sou muito de conversa, não nesses dias como este que são quase todos e já são tantos que devem ser anos, por isso escrevo. Se eu não fosse ateu teria uma bobagem mística pra acreditar. Infelizmente não se volta ao paraíso. Já disse uma vez que as portas do paraíso só abrem para expulsar, nunca para acolher. E o desejo de reinar é válido até no Inferno, melhor reinar no Inferno do que servir no céu, disse John Milton no “Paraíso Perdido”, você não leu? Claro que não. Então não leia, não leia também O Fausto, não leia O Livro do Desassossego, nem Notas do Subterrâneo, não veja As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, não assista As Horas nem A Última Tentação de Cristo, jamais ouça Tori Amos e nunca leia Sêneca, nem Virgílio, nem Schopenhauer, nem “descubra” Gentileza, Niezstche sempre está na moda, mas nunca se aproxime demais. Cuidado teu sorriso pode murchar aos poucos conforme você for descobrindo que. Os vincos ao redor da boca podem ficar mais fundos conforme você for descobrindo que. As caixas pretas foram feitas para serem abertas somente após o desastre, então não corra o risco de abrir a sua ainda em vida, até Freud sabia que não se abre uma caixa de escorpiões, só os loucos e os anjos caídos fazem isso. E não há mais salvação. As injeções estão menos doloridas ou eu que já não sinto nem a picada nem a droga sendo injetada intramuscularmente? O que importa isso agora? Preciso voltar às mesas cirúrgicas como antigamente, quando era certo e quando eu acreditava no meu personagem. Não sei se o truque vai dar certo desta vez. Não há nenhuma nuvem romântica no balão dos meus pensamentos. Não sei se vou, se fico e vejo o navio ficando pequeno no horizonte, não sei se volto, como voltava sempre, com cicatrizes, mas vivo, saindo de um túnel, como Pagu, mas até ela desistiu um dia, como Virginía Woolf desistiu, como Ana Cristina Cesar desistiu, como Silvia Plath desistiu. Só há nomes femininos nesta lista de desistências. Talvez porque as mulheres saibam mais claramente quando é realmente o momento de desistir. Hoje o dia me pegou de surpresa. Olha, já passou da hora de me encolher e recolher. Hoje eu queria mais. Não sei exatamente o que. Quem saiba eu tenha um lindo sonho hoje que continue me embalando quando acordar. Olha, não sei se foi o frio, o outono ou o desejo ou o medo, mas alguma coisa acabou de calar agora.
28/05/2010
Gente
Falo para a maioria silenciosa que passa por aqui. Eu temo uma maioria silenciosa. Os que calam porque consentem ou porque não tem nada a dizer. Não sei de onde vem, não sei aonde vão. A idéia inicial deste blogue era totalmente diferente (aliás agora existe um diferente), mas pra aproveitar o endereço iniciei por outro viés: o das idéias. Como sempre fui fascinado por mitologia grega apresentei um único diálogo para que ele se abrisse tomasse forma ou formas. O diálogo é do Desejo com o Medo, das diferentes maneiras e formas como eles se apresentam em nossas vidas, a principal delas esta no campo do relacionamento com o Outro, seja este Outro sujeito, objeto ou ao contrário, sejamos nós o objeto ou talvez ambos o sejamos. De qualquer forma é um diálogo circular que, como numa mandala astrológica, passa pelos 12 palcos da vida até retornar no mesmo ponto de partida. O diálogo embora seja representado por 2 deuses mitológicos, passa também por outras figuras mitológicas quer sejam gregas ou venham dos nossos mitos particulares. Este blogue é dialético, não é uma visão estática de um blogueiro, por isso pede participação. Muitas vezes o silêncio é de ouro, concordo totalmente. Mas, como disse Jean-Paul Sartre certa vez, o silêncio é reacionário! Eu quero histórias, eu quero dúvidas, questionamentos, dores, afagos, quero uma orquestra improvisada com letras sonoras. Tá certo que este blogue é elitista mesmo, não é pra qualquer um que não tenha a mínima noção do que se passa (ou deveria passar) aqui. Nâo é pra ser “bunitinhu”. Mas é pra Ser e Acontecer. Gente olha pro céu/Gente quer saber o um/Gente é o lugar/De se perguntar o um.(…)Gente espelho da vida, doce mistério…(Caetano Veloso). Eu quero escrever pra gente.
Aproveitando a oportunidade explico meio lacônicamente que a história abaixo acabou. Não teve fim, mas acabou. Bem, eu cometi um engano, a história não devia ser escrita na primeira pessoa, apenas as minhas intervenções seriam na primeira pessoa. Escrevo muito. E quando escrevo, se vai dar uma histórinha, faço isso em módulos, não sigo uma narrativa linear, como uma estante de módulos que você pode deixar do jeito que quiser. Muito pouco do que escrevo vem parar aqui, geralmente não pára em lugar nenhum, a não ser na falha memória do computador, até dar algum pau e eu perder tudo, como já aconteceu e eu não aprendi. Eu que sou do tempo da máquina de escrever deveria saber que nenhuma tecnologia substituiu ainda o papel impresso. Bem, por causa dessa falha, mesmo que só uma ou duas pessoas tenham lido, em respeito a ela(s), deixo a história assim, sem mudar nada nem acrescentar. Mas deixo em aberto caso alguém queira aproveitar o “gancho”. Também não costumo me assumir dono de nada que publico na net, nada de direitos autorais, caiu na rede é peixe. Se quero me assumir dono de algum texto que publico primeiro vou tratar de registrá-lo, não é o caso aqui. Só posto o que abro mão de autoria. Feitos estes esclarecimentos, resta dizer que este blogue pode ser paralizado a qualquer instante, digamos, por falta de liquidez pra manter uma banda larga. No mais, boa noite e não apague a Luz o último que sair.
21/05/2010
Uma história de…
Eu poderia convidá-la para um café, um chocolate, talvez um conhaque. Não, seria muita bandeira, logo de cara oferecer algo com alcool. Para certas coisas os rituais são sagrados e não se deve nunca pular etapas. Mas a ideia do chocolate é boa. Está frio, garoento e todo mundo gosta de chocolate. Ou pelo menos deveria. Vamos, o tempo corre e as oportunidades são como elfos, silfos, salamandras, fadas, elas vêm rápida e repentina e sutilmente nos tocam, podemos perceber ou não. Se não percebermos continuaremos com nossas vidinhas medíocres e previsíveis, mesmo que povoadas de sonhos e até sonhos realizáveis desde que. Existem os que conseguem enxergar, por um segundo no máximo, os elementais, as salamandras chamam mais a atenção, mas as fadas gostam de provocar. E há essa imensa maioria de seres urbanos até a medula como eu que nunca enxergou nada, nem mesmo alucinando de haxixe. Mas posso sentir. Não sei dizer como é esse sentir. Será que preciso ir ao começo desta história? Mas já aviso: ela não tem fim. Ainda. Ou talvez eu invente um fim. O tempo está passando preciso agir depressa.
Ela não é do tipo que um sujeito qualquer chamaria de bonita, gostosa, essa coisa entre homens que parecem sentir orgulho de fazer acreditar que só pensam com a cabeça de baixo. As mulheres ficariam surpresas se soubessem o grande número de homens que escondem a todo custo suas fragilidades por medo da perda da virilidade. É uma coisa atávica. Mas os que percebem-se diferentes e que agem diferente, que conseguem desenvolver certas feminilidades sem contudo serem homossexuais. Estes também não se notam facilmente. A não ser em situações como esta. Eu não queria nela uma beleza cosmética, um corpo curvilíneo, nada que fosse comum encontrar numa mulher bonita e gostosa. Eu sou desses homens diferentes, sofro por isso, mas falo disso outra hora. Agora, neste segundo em que este turbilhão de pensamentos me invadem é o momento da ação. Homens como eu apreciam as mulheres que sabem tomar a iniciativa. Nada de invasivo, sem excessos que só fazem decepcionar ou com uma intenção causal de seduzir. Não. A sedução é a soma da história toda, se ela for boa. Mas nesse momento eu olhei rapidamente no exato instante em que ela ajeitava os óculos sobre o nariz com o dedo médio, de unhas curtas mas bem feitas. Havia aquele antigo cachecol vermelho e preto, curto, parecido com um que já tive. Falei do cachecol porque das unhas curtas porém vermelhas no dedo que ajeitava os óculos emendou-se a imagem do cachecol em volta do pescoço. Dá uma sensação de felicidade quando a gente percebe detalhes que vão se somando até chegar finalmente à imagem de uma mulher bonita. Eu diria linda. Pois em tudo ela era tão sutilmente feminina que poderia adivinhar seu perfume se ela estivesse usando um. E se usasse um seria tão delicado, que só de muito perto a gente conseguiria perceber. Mas não estávamos perto o suficiente. Pelo menos não até esse momento. Ei leitor-ouvinte, eu escrevo por fragmentos, peças que precisam ser montadas. E ainda não escolhi direito as peças.
Do meu lado eu estava num daqueles dias de asperezas. Logo cedo me vesti com a roupa mais fácil que me apareceu que me dava um certo ar de funcionário de banco! Quando eu acordei mais parecia que ia seguindo um roteiro de punições, porque logo aquela roupa que não tem nada a ver comigo? Parecia que minha mãe havia ressuscitado (às vezes ela ressuscitava) e tinha deixado aquela roupa de propósito. Vai seu cabeça de merda bota uma roupa decente! Talvez por isso esse gosto secreto pelas indecentes elegâncias. Queria ter conhecido os cabarés do começo do século 20. Queria ter morrido jovem, sifilítico ou tuberculoso, como Alvarez de Azevedo, até tentei morrer, no dia
em que fiz 22 anos! O que se sucedeu foi rídiculo e nem merece comentário. Se eu for parar em cada cena ridícula de minha vida não termino nunca. Nem sei se vou terminar. Esta história tem vida própria. Agora estou escrevendo lúcido sem ouvir nenhuma música, só os sons irritantes da rua, a minha garganta doendo, café, cigarro. Mas também vou querer escrever com trilha sonora que vai do dixieland ao trip hop, passando obviamente pelo bolero e bêbadas Maysas. Um pouco chapado de maconha e vinho. Quero escrever com todos os eus. O final vai dizer qual eu tem prevalecido. Eu não devia dar detalhes. Tinha parado no momento em que vesti aquele traje corretíssimo e, como chovesse ainda saí de guarda-chuva, sabe? Daqueles de apontar porco, como diria meu avô. Frio e chuva e eu me guardando todo deles. Logo eles que me colocariam frente a frente com aquela mulher de óculos, unhas curtas e vermelhas, feminina desde a alma, com uma calça bailarina por debaixo de um vestido de que cor? Isso defino depois. Café ou chocolate? Tenho quase certeza que uma fada piscou pra mim!
19/05/2010
e o que você fará com teu imenso amor com que dizes me socorrer quando os delírios ficarem mais constantes e eu começar a vomitar sangue perder os dentes cagar na cama quando olhares para meus lábios que dizias serem carnudos e bons quando te beijava e te lambia inteira e cada vez mais depressa tornarem-se dois riscos murchos balbuciando coisas incompreensíveis e meus olhos ah meus olhos tão intensos e inquietos e infantis ah estes olhos que você não mais reconhecerá quase cegos ah por que tantos anos de esperança nesse amor dirás ou pensarás em voz alta e queixarás ao demiurgo que chamas de deus e teu eterno amor ganhará cores cinzas e frias e quase me odiarás por eu ter sido assim sempre acreditando que eu gostava de ser um louco carrasco de mim mesmo agora assim eternamente assim prisioneiro e quando chegar aquele dia que nunca sabemos quando tu estarás certa de que já não percebo nada e contrariando toda a ciência sim sim eu estarei ainda presente ainda mais inteiro castigando-me com uma tamanha lucidez com uma tamanha crueldade e não saberás da piedade que terei por ti e uma voz muda dentro daquilo que fui eu gritando culpado culpado culpado subindo para o inferno exterior onde existem flores e coisas como manhãs sol terra e teu amor não terá mais importância mesmo que tenha sido sincero e nem meu nome e nem mais nada e nunca mais enganos veja estou ficando livre das correntes por que não precisa? porque não preciso
09/05/2010
A Longa Espera ou o Canto da Cigarra – epílogo
dedicado a Mercedes Sosa que me eninou muito sobre arte, espera e vida…
O que escrevo é o que calo. É a voz que não sai, a melodia que não compus para acompanhar este amontoado de letras. Hoje não haverá graças, nem jocosidades, essas coisas que compoêm o meu ser. Se alguém teve a curiosidade de ler o meu perfil entende que este escriba é um homem que esteve cego. Que esteve dormindo. Em coma. Como queira. Que vivia à margem malcheirosa de si mesmo. Perdoem os erros de gramática ou digitação. Hoje não estou nada bom e sem revisões. Este escriba sofre da mais moderna das doenças. Não vou ficar falando sobre isso. Concluam vocês mesmos se algo houver a concluir. Eu sou o que soa eu não douro pílula. Eu tenho me matado por lutar por viver. Difícil entender? Sei que fica dificil entender gente como eu. Sinestesias. Tome uma antes de abrir este blogue. Hoje eu saí do roteiro, mas foda-se, como Clarice eu escrevo por profundamente querer falar. E os que podem me ouvir são como eu, ou até piores. Pior no sentido como você percebe as cores e os movimentos. Você já ouviu como cada letra produz um som? Digito como se tocasse um piano. Tons menores, abafadores, distorcedores. Queria que você ouvisse a música que sai deste teclado. Me faça um favor, se você leu até aqui me faça um favor. Ouça esta canção de outono que escrevo para você. Eu me dedico hoje todo à você e se você necessita de alguma salvação, da cura de alguma dor juro pelo mais sagrado que serei teu herói, ou fada, se de coração você me permitir esta coisa possível entre humanos. O que te grita mais alto no coração. Silêncio. Sento ao teclado. Eis a música que escrevo para que você peloamordedeusmeouça.
Desde a tarde está chovendo nesta cidade cinzenta de um frio estranho pela qual sinto um profundo amor e respeito. A terra está amolecida. Ei, é outono, estou quase conseguindo sair totalmente da terra, sair desta longa fase ninfa e procurar por um árvore. Agora quem fala sou eu A Cigarra. Você sabia que existem vários tipos de cigarra que passam de 4 a 17 anos enterradas na terra, lentamente se transformando, se transmutando, se emoldurando, se criando? Se criando?! Sim, longuíssima gestação, que ao nascer já terá incorporado tanta vivência atávica que já nascerá no alto verão de si mesma. Sabedora de tudo, conhecedora de tudo. Do bem e do mal em substâncias ainda tão impossíveis para humanos sentirem, descreverem. Alguém consegue enxergar o infravermelho? Alguém consegue “enxergar ” certos níveis vibracionais? As cigarras já nascem sabendo. Ao sair da terra elas procuram a árvore mais próxima e começam lentamente a subir. E também lentamente elas começam a vibrar suas asas, seu canto. E elas sabem que terão apenas três semanas de vida para viverem o propósito de sua existência. Na próxima vez que você ouvir cigarras cantando tenha a certeza que algum ser na natureza está no pleno exercício da sua vida. Por que um ser chega a passar 17 anos da sua existência enterrado, para de fato viver por apenas três semanas? Um ser que ocupa plenamente seu espaço no mundo apenas 0,3% de sua existência? Bem, isso se considerarmos que vida é algo em movimento, talvez para argumentar-se em alguma questão relativa a arte essa condição seja até verdadeira. Mas a arte não precisa imitar a vida ou pelo menos não todas as formas de vida. A arte jamais entendeu e jamais entenderá tudo que é seu sangue: a existência de vida pressentível. Felizmente a arte jamais entenderá tudo, pois seria o fim da arte. A criação estaria totalmente concluída e todos os deuses passariam o resto de sua eternidade na quase-morte da hibernação. Não, artistas. Ouçam as estações do ano, tentem ao menos imaginar, dentro ou fora de seu espaço de consciência, níveis tão outros de vibração que compôem cada estação. É tão certo os cíclos da vida. Os Egípcios sabiam disso e se você tiver a fatal felicidade de ver um céu noturno, repleto de estrelas e lá você ver as constelações do Órion e do Cão Maior e lá você reconhecer o trapézio e o cinturão de Órion e a gigantíssima, brilhantíssima Sírius do Cão Maior você estará vendo a disposição das pirâmides do Egito! Não, eu não estou delirando, se tiver dúvidas consulte a wikipédia ou outra mais à mão. As primeiras civilizações surgiram às margens do Nilo. Estou certo? E entendendo o mecanismo de cima, entenderam o mecanismo de baixo. Que tal entender o mecanismo de dentro para entender o de fora? O verdadeiro Jesus gnóstico e proibido até hoje pelas santíssimas igrejas, sabia das coisas quando dizia, em seu Evangelho da Verdade (conhecido nos meios psicanalíticos como Códice de Jung), que os homens encontrariam o reino de deus quando o de cima fosse como o de baixo e o interior como o seu exterior. E quem tenha ouvidos para ouvir que ouça. Você consegue ouvir minha música solitário e bemvindo leitor?
Não estamos na temporada das cigarras. Posso aproveitar para falar, se é que já não ficou claro, que nessas três semanas de vida as cigarras machos (as que cantam) e as fêmeas, procuram-se a si mesmas para procriar. A fêmea quando põe seus ovos morre logo em seguida, os machos quando fecundam a última fêmea calam seu canto e também morrem. Impossível a um incorrigível romântico como eu não sentir certos arrrepios quando falo e sei disso. Mas o que eu quero dizer o que eu estou tentando enfadonhamente dizer é que. É que. É que eu homem passei toda a minha vida enterrado na terra. Esta é a visão mais otimista que consigo ter de mim mesmo. Enquanto estive enterrado pratiquei todos o erros, todos os (pouquíssimos) acertos, conheci muitos dos sabores da vida e agora me levanto, tiro minha capa de ninfa e digo a mim mesmo: Estou pronto! É claro que a história das cigarras não é uma love story, é o mero cumprimento de suas missões conforme sua espécie, e há aquelas que falham nessa missão, há aquelas que são devoradas por seus predadores muito antes das três semanas, muitas ainda mal e mal chegando à árvore, sem ainda abrir suas asas. O que você queria? Garantia? A vida não é um eletrodoméstico. “Dar certo na vida” não está presente na Declaração Universal dos Direitos do Homem nem no nosso Código de Defesa do Consumidor. E muito menos em qualquer tipo de bíblia, é claro excetuando-se aqueles pasquins de auto-ajuda paulocoelhianos.
Bem, estou do lado de fora da terra agora, não tenho garantias, mas tenho tudo que preciso para chegar ao lugar onde me cabe chegar (esta aqui está no Livro das Mutações,o I-Ching). Nem sei se vou alcançar aquela árvore ali em frente (um pessegueiro). Mas EXIJO meu direito a três semanas daquilo que vou chamar aqui inapropriadamente de FELICIDADE (fica mais fácil de entender). Tenho realmente pouco tempo e ele já está corrrendo desde que me enterraram. Não peço sorte, não peço chance, não peço que o sol brilhe nem que as noites sejam estreladas. Só me deixem ser um homem desenterrado. Um homem vivo, que, afinal, e apesar de tudo quer VIVER. Quando, e se eu chegar, ao pessegueiro ali em frente eu com muita alegria partilharei isso com vocês. Tenham uma boa noite meus queridos, desce o pano.
(…) Cantando al sol,
como la cigarra,
después de uns años
bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra
17/04/2010
A Longa Espera ou O Canto da Cigarra – parte III
Fim de verão começo de outono, o canto das cigarras cessou. Estão mortas. De prazer? Desgosto? Não, apenas morreram para cumprir seu papel evolutivo. Prazer e desgosto só para alguns tipos de mamíferos como os sapiens. Nascer, viver, procriar e morrer eis a estúpida missão de todas as espécies inclusive da nossa. E no que se refere ao sapiens sapiens a missão se deturpa porque incluímos depravações culturais que fazem dos freudismos necessidades quase atávicas, eu disse quase, pois de atávico mesmo só o desejo da sobrevivência. Uma leitura mais atenta de Darwin nos pouparia anos de psicanálise e dúvidas existenciais.
Agora silêncio, horas morrendo, belos pores do sol, algum vento mais frio, anuncio de mortes, algo vai morrer. Este é o outono, quando o grande ceifeiro faz o seu passeio. Depois virá o inverno, época subterrânea, o ceifeiro já passou, os terrenos são preparados para todos os renascimentos, mera repetição de todo mecanismo vital. Mas os poetas insistem em dizer que a vida urge, que a vida grita, que a vida isto e aquilo. E não só os poetas, os filósofos fanáticos por ética também padecem do mal da vida, como forma de interação e construção. Mas do quê? E principalmente, para quê? A vida tem de ser ética, bela, arquitetônica? Aqui caímos no campo da arte. Dividimos as artes, sejam elas quais forem por estilos, conceitos, épocas. O barroco, por exemplo, expunha a contradição pontual do homem que se via frente a seu desejo, mas no espelho de si próprio havia ainda a estúpida presença do deus cristão dizendo que o paraíso fica pra depois. E hoje em dia? Ano 2010 o que se vê nas artes? Decomposição, descompostura, desconstrução (para usar um termo da moda). Se dividirmos a existência das manifestações artísticas desde nossos antepassados cavernosos até os dias atuais em estações do ano, eu diria que estamos no fim do outono das artes. E, se entendermos a evolução fashion como acompanhante da arte – eu jamais diria que moda é arte, talvez um simulacro que faz parte das nossas perversões – ela também está presente, basta ver as fashionweeks da vida.
Eu aprecio este silêncio repleto de barulhos naturais, como o de folhas secas, algumas frutas desprendendo dos galhos, pássaros migratórios cortando o céu que não é do avião. E eu aprecio porque sou um ser repleto de sentimentos, mesmo sabendo que são inúteis e que estou errado. E por inútil entenda sempre algo que vai dar em nada. Vivemos numa eterna espiral, passamos sempre pelos mesmos lugares, mesmas situações, repetições: é a vida. Os mais “evoluídos” fazem essa espiral ascender, mas na maioria das vezes ela gira em torno de si mesma como o próprio universo que ainda não sabemos se ele se contrai ou se ele expande ou ambos. E neste momento em que sou apenas um macaco ignorante relembro que as cigarras estão mortas, daí não se ouvir seu canto. Mas lá naquele mesmo subsolo invernal que nenhum Dostoievski supunha estão as cigarras ninfas recolhidas, em silêncio esperando pelo seu momento. A natureza é sábia. Não, a natureza não é sábia, ela apenas é e este “é” não comporta éticas e sentimentos demasiado humanos.
31/03/2010
A Longa espera ou O Canto da Cigarra – entreato concebível.
Devo me desculpar e seguir em frente. Um dos grandes males do sapiens sapiens é a memória, sobretudo quando ela é nebulosa, cheia de teias de aranha, baratas e muito musgo mal cheiroso. E não devo me alongar muito, pois nenhum eventual leitor de blogues suporta mais do que dois parágrafos, principalmente quando são labirínticos e já não trazem uma idéia digerida pronta. Então vamos ao segundo parágrafo.
Dois dedos, letra maiúscula. Há poucas horas atrás ouvi uma escumalha gritando (pelos altos tons agudos suponho ser uma imensa maioria de mulheres). Primeiro acreditei ser algum gol de algum time, mas que eu saiba não havia nenhum jogo narrado por Galvão Bueno, o ufanista brasileiro ilusionista da alegria e da seriedade dessa gente guerreira e brahmeira (mais brahmeira do que guerreira, diga-se). Mas também se fosse um jogo os gritos histéricos teriam tons mais graves, somando-se a eles alguns xingamentos, algo como: chupa sei-lá-quem!!! Bem, ficou a dúvida. Como nesse momento estava no meio de uma aula de espanhol online, dada de bom grado por uma biba boliviana (ou colombiana, o que dá no mesmo, já que um é fodido por um índio-quer-apito-se-não-der-pau-vai-comer e o outro fodido pelo Chapolin Colorado), e o escriba aqui fodido pelo último barbudo do Senai a governar este país (o próximo será uma mulher barbuda com bacharelado e mestrado sobre menstruação após a conquista do poder). Entonces, la aula caminava bién, hasta que la biba empezó a dar em cima deste pobre proletário que, contrariando as ordens vigentes pelo clero e pelo Estado, houvera lido livros malignos. Mesmo sendo virtual eu sentia aqueles 15 braços e 30 mãos tentando abrir minha braguilha, até que consegui, com muita diplomacia tropical, me livrar daquele ser também sapiens, mas com a degeneração do cromossomo X e ½ e fugi até o supermercado mais próximo para comprar uma devassa. Caramba já escrevi deveras e não conclui o 2º parágrafo. Peço que tenham paciência e esperem pelo terceiro que, prometo, será breve e mais sucinto.
Não sei se será possível recuperar minha seriedade, que tentei manter nestes pensamentos depois destes dois primeiros parágrafos. Essas últimas palavras combinam mais com meu outro blogue escrito pela minha segunda e última personalidade, fato que não deveria estar revelando aqui. Acho que é efeito desta devassa bem loura e proibida que me….Compostura, ó Perseu! O raio é que perdi o fio da meada do começo, quando estava de chicotinho na mão pronto a punir-me por ser humano, deveras e tristemente humano, e derramar palavras para compor a terceira parte desta já enfadonha historinha. Mais um gole e vamos lá falar do fim do verão. Época ruim, pelo menos para falar do canto das cigarras. Vocês sabem quantas possíveis delícias e estranhezas existem naquele estridente canto da cigarra? Bem, promessa é dívida. Disse que agora seria breve e serei. Me aguardem em outro momento mais solene como se pede a um herói, enquanto eu sigo sorvendo as delícias molhadas desta loura.
PS: Já que esculhambei hoje, resta contar que soube à pouco que a gritaria da choldra feminil era por causa de um tal de Dourado que ganhou sucesso instantâneo e efêmero como Toddy num programa de TV que faria George Orwell devorar as próprias mãos dentro do túmulo. Salve Dourado, seja você quem ou o que for. E salve Páris Hilton, que me salvou da maciez embriagante da mediocridade.
21/03/2010
A Longa Espera ou O Canto da Cigarra – parte II
Ah, mamãezinha querida, como eu te odeio. Poderia amá-la, mas por que? Porque o normal são os filhos amarem suas mães e vice-versa? Prefiro alvejá-la com meu ódio. Se você tivesse sido humana eu seria a doença que te mataria e acrescento que com deleitoso prazer eu faria isso. Aos apreciadores de maternidades devo um pedido de desculpas e uma explicação já que logo neste começo devem estar de cabelos arrepiados. Não é do ser carnal parideiro que eu falo. Eu falo de um lá trás tão lá trás que nem Deus ainda tinha pensado em nascer. Eu falo de um parto original, talvez o rebento de Gaia, Urano, ou talvez do Caos que gerou Gaia. Puxa, pra que tanta mitologia pra falar do caos? Mas não é do caos que estou falando. E sim do Caos. Você consegue imaginar o nada absoluto? Este é o Caos. Creio eu que houvesse uma paz nesse Caos, como a suposta paz de um útero docemente materno.
Mas desde o dia em que fui expulso deste paraíso inconsciente surgiu a dor. Não sei definir a dor primordial, mas sei que ela é a origem do grito mais primal e desesperado de toda uma vida sapiens sapiens! Às vezes penso ter sido eu um daqueles monstros titânicos que faria de Herodes um herói paternal. Ao jogar luz naquele poço que todos tem, que vocês têm, eu rompi o selo que o tapava. Jurava que toda a verdade da criação estaria escondida lá dentro por um demiurgo qualquer. Freud chamaria de…inconsciente? Teimoso esse Freud, que acabou, afinal, por tirar o selo de seu próprio poço e morreu tão miserável e questionador quanto nasceu. Mas aqui o palco é do Ego do Egoísta. Deixai-me regozijar-me pois.
Perdoai-me sizudos expectadores, mas eu não sou afeito à paz. Haverei de morrer na guerra em que eu me meto. E olhe lá que já freqüentei a escola da paz e até dos amores de licor de aniz. Até fui bom aluno, pelo menos até o dia em que cai de cama. Mas este é um outro assunto longo que não cabe neste trecho deste relato. Eu citei um certo poço que poderia ser a caixa de Pandora, ou o depósito de toda “sã” verdade. Ao jogar luz neste poço descobri ser um aterro de merda. E, caramba, eu estava lá, você estava lá, o mundo estava lá desde sempre! As sujeiras precisam ser escondidas de nossos maieuticos olhos e ouvidos e coração. O inorgânico é anterior à existência, portanto, nós também somos feitos da mesma nojenta massa que compõe os dejetos. E, também portanto, nossa plena consciência da vida também tem de ser escondida de nós, por que, ai daquele que dá conta dessa tal consciência: vai passar o resto de sua miserável vida vomitando sua alma inorgânica sobre si mesmo!
Perdoe mãezinha, você não teve culpa, nem eu. Somente a culpa é culpada. Com muito custo aprendi a me livrar dela (fruto de meu aprendizado com aqueles filósofos e psicanalistas alemães e judeus ou ambos o que só aumenta a….bem deixa pra lá). Livrei-me da culpa. Mas a filha da puta aparece em certas noites sorrateiras para pixar em meu muro: Aqui mora um culpado! Ainda sinto medo mãezinha. Neste momento eu não queria sentir medo. Queria ter a sensação do choro e do acalanto e, se houvesse beleza e harmonia nesse instante, ninguém haveria de flagrar o meu pequeno e soluçante momento de covardia.
21/02/2010
A Longa Espera ou O Canto da Cigarra – parte I
Sabemos que é do conflito psíquico que parte toda gama de interesses psicanalíticos. Bem, eu poderia auto-denominar-me Psicótico-Sem-Palco e totalmente despretensioso de exasperar meu Ego à guiza de atenção. Não, ao contrário. Como uma flor tímida eu recolho meus ramos, minhas pétalas, minhas cores. E, ao fazê-lo, sou somente um caule dormente para fora da terra, enquanto minhas raízes, vivas e raivosas, partem em excursão às profundezas não-orgânicas do meu inconsciente repleto de possíveis micorrizas. E, como há um prazo social a ser cumprido, a viagem interior necessita ser precisa e rápida. Mas, para que exatamente fazemos isso? Digo, alguns poucos de nós fazemos isso? E, se você prestou atenção às minhas primeiras palavras, certamente percebeu que estou em pleno surto agora e, ao perceber, você é o sujeito da platéia que desmente a minha ausência de palco.
Bem, vivemos de pequenos truques como esse para escapar da vigilância big brother dos tempos atuais. Aos teus olhos, meu caro, devo parecer bom, belo e justo. Afinal sobrevivo sob uma paralisante moral social tão cristã quanto hipócrita. Sinto-me verdadeiramente um judeu ou qualquer outra ralé inaceitável na Varsóvia dominada pelas tropas nazistas. Por isso, como um ator, trapaceio, encenando um sorriso solidário aos meus pares, aos meus contrastes. Se usarmos nossas máscaras corretas e corretamente, nenhum de nós perceberá a fragilidade do outro que sabemos que existe. Digo, alguns de nós sabe que existe. Bem, acho que isso explica o porquê da necessidade de jogos sociais, de mentiras abençoadas por todas as igrejas de todas as crenças, de cemitérios de desejos, de uma política repressora sempre para o bem da ordem estaticamente estabelecida, a defesa da propriedade e dos bens comuns. Enfim, poderia preencher laudas inteiras com causas históricas e ou pontuais que preenchem todas as lacunas dos porquês.
Aqui já assumo que há um palco, como eu poderia negar isso? Ah, mas somos livres!!! – grita alguém das cadeiras do foyer mais ao fundo. Então por que não estás nos camarotes ou aqui nas primeiras fileiras? – rebato. A resposta do gritador distante não nos interessa, pois ele é daqueles felizes que não percebem que o sorriso está na máscara que lhe deram. Não querem resposta, pois não fazem perguntas. E eu recheio este texto com muita e pomposa semiótica para disfarçar meu medo de dizer o que minhas raízes enfiadas no cu da escuridão estão conseguindo enxergar. Ai, horas negras, horas exatas, intermináveis. Te conheço tanto que até sei que teu nome é um pronome pessoal que me fica entalado na goela. Os doutores em psicanálise se agitam. Hora de apressar o cofeebreak. As nossas máscaras já estão suando deste calor insuportavelmente nervoso. Bem que mamãezinha dizia, de cima de seu pedestalzinho, que a “língua é o chicote do rabo”.









